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Apanha de bivalves proibida no Sotavento algarvio


12.º Ano BIOLOGIA - V. Preservar e Recuperar o Meio Ambiente

Apanha de bivalves proibida em grande parte do Sotavento algarvio
25.06.2012 - PÚBLICO.PT | Idálio Revez

Foto: Pedro Cunha

sa A apanha de bivalves voltou este fim-de-semana a ser permitida em parte da ria Formosa


O Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (Ipimar) levantou a interdição da captura de bivalves na maior parte da zona da ria Formosa, encontrando-se ainda interdita a apanha em parte da orla marítima algarvia. Nas últimas duas semanas, a região algarvia foi afectada por uma biotoxina (ASP), que além de causar diarreia e vómitos ataca também o sistema nervoso central, provocando amnésia temporária.

Este tipo de contaminação acontece quase todos os anos por esta altura, geralmente coincidindo com o aumento brusco da temperatura das águas. O perigo de toxicidade, diz o coordenador do Ipimar Carlos Vale, "existe, neste momento, em quase toda a costa", referindo-se à biotoxina DSP, a mais comum, susceptível de provocar diarreias e vómitos.

Já no que respeita à biotoxina ASP, a que pode afectar o sistema nervoso central, o risco encontra-se restrito ao Algarve, embora já tenha sido autorizada a apanha de bivalves entre Faro e Quatro Águas (Tavira), apenas na ria Formosa.

"As algas que dão origem a estas toxicidades duram pouco tempo", justifica o investigador. "De um momento para o outro a situação pode alterar-se", razão pela qual, diz, o Ipimar tem vindo a fazer um "acompanhamento permanente" de todas as zonas de captura ao longo do litoral do continente.

Após quase duas semanas de interregno, em Santa Luzia (Tavira), os pescadores voltaram este fim-de-semana à pesca na ria Formosa. "Temos de comer", diz José Pires, um pescador que passou 40 anos a pescar polvo, e agora se dedica à captura de bivalves para completar a magra reforma. "Ganho 375 euros por mês, tenho um filho de 41 anos a viver comigo [pescador e desempregado], não posso parar", justificou.

Por isso, mesmo quando o Ipimar decretou a proibição da apanha não ficou em casa. "Não posso ficar de braços cruzados", explicou. Sobre a contaminação das amêijoas e das conquilhas, acha que há circuitos de comercialização paralelos. "Uma vez que se vendem nos restaurantes, devem vir de qualquer lado, não acha?" Em Faro, Francisco Majua, viveirista, avança com uma explicação diferente: "A captura em Espanha também está proibida, mas não faltam por aí amêijoas e conquilhas com selo de Itália, apanhadas na Tunísia ou na Turquia. Estamos num mercado aberto."

Sobre as consequências das toxinas na saúde humana José Pires desvaloriza as advertências do Ipimar. "A mim, a diabetes e o ácido úrico é que me fazem mal. Se não tomasse nove comprimidos por dia, estava desgraçado. As amêijoas nunca me fizeram mal."

A morte das algas tóxicas de que se alimentam os bivalves, diz Carlos Vale, "pode acontecer de um momento para o outro", mas adverte que é necessário "prestar atenção" à informação que é disponibilizada pelo Ipimar. Em relação à biotoxina ASP, apesar de atacar o sistema nervoso central, "não há casos conhecidos de mortes", esclarece. Os sintomas da toxicidade, enfatiza, "são imediatos, ocorrem passadas poucas horas" de as pessoas terem comido os bivalves contaminados.

Já no que toca ao eventual efeito cumulativo do consumo no organismo - isto é, quanto à possibilidade de o facto de se comer mais vezes aumentar as probabilidade de se ficar doente - diz apenas que "não foram feito testes em humanos".

Semear amêijoas

Em Santa Luzia, Francisco Carmo, 61 anos, interpreta a proibição das capturas como uma necessidade de preservar as espécies. "Se não houvesse estas coisas, destruíam tudo. A malta não pensa no dia de amanhã."

Em tempos passados, no mês de Maio "ninguém comia conquilhas, porque diziam que dava dor de barriga, porque é a altura das criações". Do que se fala agora, conclui, é das tóxicas. "Ao fim ao cabo vem a dar no mesmo." No sábado de manhã apanhou 1,5 quilos de amêijoas. No fim, devolveu-as à água. "São pequenas e para Agosto valem mais dinheiro", justificou.

José Pires, com outros argumentos, também defende o ecossistema. A propósito do título da sua terra, "Santa Luzia, capital do polvo", diz que esta espécie está a desaparecer e a responsabilidade estará nos próprios armadores e pescadores. Cada vez se pesca mais com os covos (recipientes em plástico), em vez dos alcatruzes (em barro). A diferença, explica, é que os alcatruzes muitos deles acabam por ficar no mar durante a faina, "funcionando como porto de abrigo para as desovas", ao passo que com os covos "o que lá entra já não sai".Na zona lagunar da ria Formosa, em Faro, Francisco Majua queixa-se do assoreamento: "As correntes alteram-se, há menos oxigénio na água, e a produção diminui drasticamente. O meu viveiro produz um décimo do que dava há 20 anos." Além de ter diminuído a quantidade de pescado, o preço também caiu. "Só a sardinha, por causa dos santos populares, e porque este ano há menos, é que tem bom preço."

As conquilhas e amêijoas tendem a valorizar-se por altura do Festival do Marisco em Olhão. "Mas vêm sabe-se lá de onde", diz Francisco Carmo, de Santa Luzia, a aguardar que a "sementeira" que fez há dois dias lhe traga bons resultados daqui a mês e meio. "Dores nas costas a cavar já eu ganhei, o resto logo se vê."

Embarcações do Ipimar paradas

O Ipimar, cujos serviços no Algarve estão localizados em Olhão, possui duas embarcações para apoio às actividades de investigação científica e de controlo das actividades marítimas. Ambas se encontram paradas há quase um ano.

Segunda Jun 25, 2012 17:47 / netxplica.com

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